Nesta quinta (5), Eric Pardinho dará o pontapé inicial em sua carreira no beisebol profissional. Em um evento realizado no luxuoso hotel Hilton, na zona sul de São Paulo, com inspiração nas revelações da seleção de universidade por jogadores do high school nos Estados Unidos, o arremessador brasileiro encerrará o segredo e assinará oficialmente seu contrato com o Toronto Blue Jays, cercado pela grande imprensa esportiva. Além disso, a grandiosidade da cerimônia também tem um significado maior: Pardinho é o símbolo de uma nova geração, que mergulhando numa onda de popularização do esporte no país, tem tudo para ser uma das mais promissoras da história do beisebol no Brasil.

Ao lado de Pardinho, outros cinco brasileiros assinaram contrato nesta janela de contratações internacionais iniciada no dia 2 de julho. O Houston Astros ficou com o arremessador Heitor Tokar (considerado o 50º melhor da classe pela revista Baseball America) e o terceira base Vitor Coutinho, enquanto o Milwaukee Brewers fechou com o arremessador/segunda base Vitor Watanabe e o Seattle Mariners já havia contratado o arremessador Christian Pedrol no mês de maio. A lista pode crescer ainda mais: o outfielder Gunn Omosako recebeu interesse formal dos Mariners e analisa proposta do time. Esta leva indo para o exterior representa quase 30% do número de jogadores nascidos no Brasil que possuem vínculo com franquias das Grandes Ligas (agora são 17).

“Já vem acontecendo uma evolução, que começou a dar passos maiores, o gráfico começou a subir de forma mais vertiginosa. Se no ano passado só o [Gabriel] Maciel assinou, e antes no máximo dois, agora assinaram cinco. Já é um grande avanço”, diz Thiago Ramos, olheiro dos Astros no Brasil. Tokar e Coutinho foram os primeiros jogadores indicados por Ramos a assinarem contrato com sua equipe, e ele não poderia estar mais orgulhoso. “Não tenho dúvida que eles vão chegar na Major League, ambos são muito bons. A organização inteira está muito empolgada com essa entrada no Brasil de forma agressiva”.

Os dois novos contratados dos Astros foram para um showcase da MLB na República Dominicana em fevereiro e ganharam fama entre os principais olheiros. Tokar foi um dos principais destaques, ao lado de nomes como Ronny Mauricio (que ganhou US$ 2 milhões dos Mets) e Wander Franco (que fechou com os Rays por quase US$ 4 milhões na janela). “Fui filmar o Pardinho e o Thiago Caldeira [técnico de arremessadores da Academia MLB, em Ibiúna] me falou para dar uma olhada no Heitor, que ele tinha potencial e vontade de ser jogador. Na hora, não dei muita bola, apesar dele ter um bom porte físico. Passaram alguns dias e ele me chamou no facebook pedindo algumas dicas. Comecei a conversar com ele”, diz Ramos. “Um ano se passou e ele já tinha começado a chamar a atenção. Atualizei meu relatório, mandei pra Houston e posteriormente ele foi convidado pro showcase. Na hora, falei pro diretor de scouting, que foi pra lá, viu o Heitor e me ligaram empolgadaços querendo contratá-lo”.

Ainda no showcase, Coutinho também foi bem e acabou abrindo os olhos de outros times. “Ele é o melhor rebatedor do Brasil, sem dúvida. É um menino que tem presença no home plate, sabe defender a zona, é agressivo dentro de campo e é um excelente terceira base. Tem o porte físico, tem potência no bastão, bate tudo quanto é bola, raramente leva strikeout, rouba base e é muito bom na defesa, tem um excelente braço, um verdadeiro jogador completo”, exaltou o olheiro de Houston. “Acredito que nós [Astros] fizemos a melhor oferta”. Tokar tinha ofertas de Dbacks, Cardinals, Mariners e Red Sox, enquanto Coutinho por pouco não fechou com os Dodgers. Ambos assinaram contrato no último domingo (2), na presença de Oz Ocampo, diretor internacional dos Astros, em evento em uma churrascaria de São Paulo.

Omosako, atualmente jogando pelo Cooper Cotia, acredita que esse aumento no número de brasileiros assinando contratos com times da MLB é fruto do aumento da exposição do beisebol no país. “Sempre tivemos bons jogadores que poderiam ter assinado. O beisebol apenas passou a ser mais visto aqui”. Ele, um outfielder que vê como ponto forte em seu jogo “rebater e empurrar corridas”, chamou a atenção dos Mariners e recebeu proposta oficial. “No momento não tem nada confirmado, estamos analisando ainda”, disse ele.

Pardinho é o destaque da classe. Seu ótimo desempenho no Pan-americano sub-16, além de sua participação na eliminatória do último World Baseball Classic com apenas 15 anos, onde mostrou sua famosa bola rápida potente de 95mph, fizeram do Brasil um lugar de parada obrigatória para os olheiros americanos. “O Eric, como pitcher, vai contra todas as expectativas dos scouts. Eles gostam de contratar pitchers altos, isso é de praxe. Existe uma literatura enorme não recomendando a contratação de arremessadores baixos pela questão da projeção durante a carreira e o risco de lesões. Mas você tem exemplos, até no Hall da Fama, como o Pedro Martínez, que foram contra todas essas regras”, diz Ramos. O arremessador, que era o quinto melhor na lista da MLB.com, fechou com os Blue Jays por US$ 1,4 milhão, valor que quebrou o recorde para um brasileiro que Luiz Gohara havia escrito quando assinou com os Mariners por US$ 800 mil em 2012.

“O Pardinho tem tudo pra chegar nas Majors em cinco anos. Ele vai fazer o trabalho inicial nos Estados Unidos, com um nível de competitividade altíssimo, algo que não se tem no Brasil, e todo o jogador de beisebol passa por dificuldades de performance em certo momento, o que é normal. Aqui no Brasil, arremessar 94 [mph] é fora de série, aqui não estamos acostumados a ver isso, mas isso é extremamente comum nos Estados Unidos. O nível de competitividade é muito alto e cabe a cada atleta a perseverança e foco pra chegar na MLB”, reiterou Thiago Ramos, que acrescenta: “acredito que ele vai ter muito sucesso. Basta seguir sendo o Eric, um menino focado, tranquilo, gente boa e com foco dentro de campo”.

Em 1992, José Pett, um arremessador que havia tomado o mundo dos scouts como um furacão, se tornou o primeiro brasileiro a assinar contrato com um time da MLB, o mesmo Toronto Blue Jays que hoje assinou com Pardinho. Na ocasião, recebendo US$ 760 mil, ele havia quebrado o recorde de bônus para um não-americano no mercado internacional. Pett nunca passou da Triple-A. Desde então, o torcedor brasileiro ficou na expectativa e viu passar nas ligas menores nomes como Marcel Vianna, Anderson Gomes e Jo Matumoto até Yan Gomes quebrar a barreira e se tornar o primeiro brasileiro a atuar nas Grandes Ligas. Logo depois, a geração de André Rienzo, Murilo Gouvea e Paulo Orlando fez história ao escrever o capítulo mais bonito da história da seleção brasileira com a classificação para o WBC de 2013. Agora, no mesmo ano em que Thyago Vieira pode se tornar o quarto brasileiro a jogar na MLB, o Brasil tem mais uma esperança para o futuro.

Que o beisebol no Brasil está crescendo, é um fato. Hoje, são duas emissoras transmitindo a MLB e na última World Series, no jogo sete entre Chicago Cubs e Cleveland Indians, a ESPN liderou a TV fechada em audiência durante o decorrer da partida, um fato inimaginável para muitos há pouco tempo. Agora, faltava a constatação que o esporte aqui está evoluindo. Obviamente, os problemas que persistem em fazer disso algo ainda maior persistem (e provavelmente vão ficar no caminho por muito tempo). Porém, esses cinco, talvez seis, talvez até mais, são a amostra de que o beisebol brasileiro não parou no tempo. São arremessadores e rebatedores, são jogadores com qualidades diversas, vêm de origens diferentes, de etnias diferentes. Se a tal “geração de ouro” vai vingar, só o tempo irá dizer. Se Pardinho vai realmente ir pras Grandes Ligas, também. Mas que dá vontade de acreditar num futuro melhor, ah, se dá!