Escrito pelo nosso convidado especial Mateus Luiz (@MatsBats23)

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“Olá, Mr. Hamilton.

Ou melhor dizendo, se você me concede a liberdade de lhe chamar como eu fiz nos últimos 7 anos, Super Josh.

Você provavelmente nunca vai me conhecer e provavelmente também nunca vai ler essa carta.
Mas se um dia isso acontecer, saiba que você proporcionou alguns dos melhores dias de minha vida.
Pra dizer a verdade, eu tenho é alguma sorte.

Todo garoto e garota devia ter a chance de escrever pro seu herói ou heroína um dia desses. Fazer com que ele/ela soubesse o quanto foi importante durante alguma parte de sua vida.

Eu sou um garoto de Recife, Pernambuco. Também conhecida como melhor cidade do mundo. E convenhamos, minha cidade é um tantinho distante de Arlington, Texas.

Super Josh, eu fui sortudo.

Em 2010, tive a sorte de conhecer você, o Texas Rangers e o beisebol ao mesmo tempo. E os últimos dois são partes integrais de minha vida, não consigo viver sem.

Eu também fui sortudo de pegar sua melhor fase no beisebol e talvez na vida. Não sei se essa carta seria escrita se eu te conhecesse no tempo que você tentou (e quase conseguiu) jogar sua vida no lixo.

Josh, falando como um garoto de 15 que vivia a melhor fase de sua jovem vida até aquele momento, ver você jogar era a cereja do bolo.

Cara, se brincar, acho que nem você sabia o quanto você era bom.

Andrus, Young, você, Guerrero, Cruz, Kinsler, Murphy, Moreland e Molina.

Já faz tanto tempo mas ainda lembro dessa lineup como lembro minha data de nascimento.

Josh, você e os caras mudaram minha vida esportiva.

Os outubros se transformaram em outubros mágicos. Um mês onde tudo é possível.

Eu ainda lembro de tudo. E quando digo tudo, é tudo mesmo.

Os apertos na série contra Tampa Bay. O homerun de três corridas contra CC Sabathia na primeira entrada da minha primeira ALCS. O jogo 4 assombroso em New York e seus dois homeruns.

Um dos melhores momentos da minha vida, esportiva ou não, começou em um walk cedido pra você, walk que virou uma dupla pro Guerrero e dupla que virou um dinger de duas corridas do Cruz.

Eu já tenho meus cabelos brancos, mais ainda tenho alguma vontade de correr e gritar como um guri de 15 anos, por qualquer lugar que eu esteja e veja aquele homerun do Cruz de novo.

AL MVP. ALCS MVP. Josh Hamilton.

Nós perdemos a World Series, mas aquele foi um outubro divertido.

Caro Hamilton, o melhor momento da sua carreira ainda me dá pesadelos.

Assim como você, nenhum mortal consegue explicar o que aconteceu naquele 28/10/2011 em St. Louis.

Pra dizer a verdade, aquela postseason foi estranha para nós dois. Enquanto você não rebatia homeruns nem sob decreto, eu ainda estava tentando me acostumar a meus últimos meses de ensino médio.

Devo confessar que nesse tempo apareceram outros candidatos a salvador da pátria.

Enquanto você tinha suas doses de humanidade, Adrian Beltre batia três homeruns no mesmo jogo e nos levava para outra ALCS. Contra o Tigers, também admito que iria comprar uma camisa #17 antes da sua.

Convenhamos, caro Josh, fazer o que Nelson Cruz fez naquela série é coisa de maluco. Talvez ele tenha roubado seus poderes.

E veio a World Series contra os Cardinals.

Eu não sei quantos sentimentos um ser humano normal pode ter durante a vida, mas posso te garantir que eu vivi todos que existem naqueles sete jogos.

Kinsler e Andrus salvaram o jogo 2.

Derek Holland teve a partida da vida no jogo 4.

Como esquecer o homerun do Beltre ou da dupla de duas corridas do Napoli no jogo 5?

E então, aconteceu.

No topo daquela décima entrada, eu me dividia entre xingar Nelson Cruz por não ter pego aquela bola, David Freese por ter rebatido aquela bola, Neftali Feliz por ter lançado aquela bola e se brincar eu xinguei a bola por ela não ter encontrado a mão do Napoli e me feito campeão mundial.

No meio de tantos xingamentos e lágrimas, você batia um homerun de duas corridas pra nos dar esperança e o título.

Como um bom cristão, assim como eu, você deve saber que Deus nos reserva grandes momentos para aparecermos e mostrarmos ao mundo do que somos capazes.

Não necessariamente esse momento é num jogo 6 da World Series. Mas aquele momento foi feito pra você.
Deus te disse que você iria bater aquele homerun.

Infelizmente, ele não disse que venceríamos o jogo. E muito menos a série.

48 horas depois do jogo 7 e de chorar todas as lágrimas possíveis, eu fiz duas promessas.

Eu nunca veria os jogos 6 e 7 daquela série antes do Rangers ganhar uma World Series e o nome do meu filho seria o do MVP da série mundial vencida pelo Rangers.

Todo esse tempo depois dá pra dizer que a primeira eu cumpri e cumpro até hoje.

Super Josh, apesar de sua temporada heroica em 2012, eu esqueci que você era humano e que erraria qualquer dia ou outro.

Minha admiração não me deixou ver que talvez você não fosse o mesmo. E que você estava rebatendo abaixo da Mendoza Line desde 01/06 daquele ano.

Eu só consegui notar sua humanidade quando era tarde demais.

Naquele fatídico 03/10/2012, você errou a bola que matou nossas chances de outro título de divisão. E se brincar, nossas chances de outra World Series.

A derrota contra o Orioles só foi a confirmação de uma morte anunciada.

Dois meses depois, você fez suas malas cheias com as verdes de Art Moreno e se mandou pra Anaheim. E disse que nossa casa não era uma “baseball town”.

Porque diabos meu herói tinha ido pro rival e porque diabos ele cuspiu na cidade que lhe abriu os braços?

Amigo, eu te odiei por 22 longos meses.

Nesse mesmo tempo nós perdemos um jogo 163 e vivi a pior temporada do Rangers em um bom tempo.

Quando você foi 0 de 14 pelo Angels na série contra o Royals, eu senti tristeza e vingança. Uma pequena parte de mim adorou ver você sofrer como um porco naquele confronto.

A maior parte sofreu. Você nunca quer ver seu superherói mal. Ainda que ele tenha te virado as costas.
Depois daquela eliminação, veio outra recaída e então você foi chutado de Anaheim.

Era hora de voltar pra casa.

Josh, você deve conhecer a parábola do filho pródigo.

Nós te recebemos de braços abertos, como um pai cheio de amor e saudades que recebe um filho que vacilou feio e que precisa de uma nova chance.

24/08/2015 foi o dia de sua volta.

Naquela série contra o Boston Red Sox, eu me senti numa máquina do tempo. Voltei 5 anos e toda vez que você ia ao homeplate, sentia que tudo era possível.

Daquele dia até hoje, ganhamos dois títulos de divisão, perdemos duas séries traumáticas de playoffs contra o Blue Jays, você se machucou mais umas 10 vezes e hoje está na luta para voltar ao jogo.

E eu acompanhei toda essa jornada.

Caso você volte, independente do time, será um prazer lhe ver novamente.

Caso esse seja o fim, foi um prazer indescritível lhe ver jogar.

Você já salvou muitas tardes e noites de minha pobre adolescência e juventude.

Por 4 anos, o camisa #32 do Texas Rangers me fez acreditar que até o impossível era possível dentro de um campo de beisebol.

E para um garoto de 15 anos, é isso que seu herói faz. Tornar o impossível, possível.
Com carinho e respeito, para meu grande herói. Provavelmente, o herói com mais defeitos humanos que um garoto pode ter.”