Pesquisadores da Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP), em São Paulo, Brasil, criaram um novo produto que mistura mel natural de abelha com casca de cacau. O resultado pode ser consumido puro ou adicionado a formulações alimentícias e cosméticas. As descobertas foram publicadas em ACS Química e Engenharia Sustentávelque destacou o estudo na capa.
Para fabricar o produto, a equipe utilizou mel de abelhas locais como solvente natural e comestível para extrair compostos benéficos das cascas do cacau, subproduto normalmente descartado durante a produção do chocolate. Esses compostos incluem teobromina e cafeína, que estão ligadas à saúde do coração. O processo de ultrassom também aumentou os níveis de compostos fenólicos do mel, conhecidos por seus efeitos antioxidantes e antiinflamatórios.
Os pesquisadores que coletaram amostras da mistura notaram um sabor pronunciado de chocolate que varia dependendo da proporção de mel e casca de cacau. Testes adicionais estão planejados para avaliar melhor o sabor e outras características sensoriais.
“Claro que o maior atrativo para o público é o sabor, mas nossas análises mostraram que ele possui uma série de compostos bioativos que o tornam muito interessante do ponto de vista nutricional e cosmético”, afirma Felipe Sánchez Bragagnolo, primeiro autor do estudo. Ele conduziu a pesquisa durante seu doutorado na Faculdade de Ciências Aplicadas (FCA) da UNICAMP em Limeira, com apoio da FAPESP.
Em parceria com a agência universitária de inovação INOVA UNICAMP, a equipe busca agora um parceiro comercial para licenciar o método patenteado e levar o produto ao mercado (detalhes em agencia.fapesp.br/52969).
Mel de abelha indígena e biodiversidade
Além de reduzir o desperdício de alimentos, o projeto enfatiza o uso sustentável da biodiversidade local. O mel de abelhas nativas brasileiras foi escolhido porque geralmente contém mais água e menos viscosidade que o mel de abelhas europeias (Apis mellifera), tornando-o mais eficiente na extração de compostos.
Os pesquisadores testaram mel de cinco espécies brasileiras: borá (Tetragona clavipes), jataí (Tetragonisca angustula), mandaçaia (Melipona quadrifasciata), mandaguari (Scaptotrigona postica) e moça-branca (Frieseomelitta varia). As cascas de cacau foram fornecidas pela Coordenação Integrada de Assistência Técnica da Secretaria de Agricultura e Abastecimento do Estado de São Paulo (CATI) em São José do Rio Preto.
O mel de Mandaguari foi originalmente utilizado para melhorar o processo de extração porque seu teor de água e viscosidade eram moderados em comparação com outros. Após a otimização, o mesmo procedimento foi aplicado às demais variedades de mel.
Bragagnolo observa que o mel é sensível a fatores ambientais como clima, armazenamento e temperatura. “Assim você pode adaptar o processo ao mel local, não necessariamente ao mel de Mandaguari”, diz.
Química verde e extração por ultrassom
O método de extração depende de tecnologia ultrassônica. A sonda, que lembra uma caneta de metal, é inserida em um recipiente com mel e cascas de cacau. As ondas sonoras criadas pela sonda ajudam a liberar compostos do material vegetal para que se dissolvam no mel.
Essa abordagem funciona formando bolhas microscópicas que colapsam e aumentam brevemente a temperatura, ajudando a quebrar as cascas. Na indústria alimentícia, a extração ultrassônica é considerada uma técnica ecologicamente correta porque é mais rápida e eficiente do que muitos métodos convencionais.
A sustentabilidade foi formalmente avaliada em um estudo utilizando o software Path2Green, desenvolvido pela equipe liderada pelo Prof. Mauricio Ariel Rostagno da FCA-UNICAMP, que também orientou o doutorado de Bragagnolo e coordenou o projeto. A análise mediu até que ponto o processo atendeu aos 12 princípios da química verde, incluindo transporte, processamento downstream, purificação e aplicação. O uso de um solvente tópico, comestível e pronto para uso foi uma grande vantagem. Numa escala de -1 a +1, o produto recebeu nota +0,118.
“Acreditamos que com tal dispositivo em uma cooperativa ou em um pequeno negócio que já trabalhe tanto com cacau quanto com mel natural de abelha, seria possível aumentar o portfólio de produtos com valor agregado, inclusive para a alta gastronomia”, sugere Rostagno.
Prazo de validade e aplicações futuras
A equipe também está planejando pesquisas para examinar como o ultrassom afeta a microbiologia do mel. Assim como o ultrassom destrói as células vegetais, ele pode romper as paredes celulares de microorganismos, como bactérias, que podem estragar o produto.
“O mel de abelhas nativas geralmente precisa ser refrigerado, maturado, seco ou pasteurizado, ao contrário do mel de abelhas europeias, que pode ser armazenado em temperatura ambiente. Suspeitamos que simplesmente por influência do ultrassom os microrganismos contidos no mel sejam eliminados, aumentando a estabilidade e a vida útil do produto”, explica.
Olhando para o futuro, os pesquisadores pretendem explorar outras formas de usar o mel de abelha local como solvente na extração ultrassônica, incluindo o processamento de resíduos vegetais adicionais.
Além de bolsas de doutorado e estágio internacional de pesquisa para Bragagnolo, o projeto recebeu diversas bolsas e auxílios da FAPESP (23/02064-8, 23/16744-0, 21/12264-9, 20/08421-9, 19/13496-0 e 18/14582-5).



