A notícia abalou as redações. Marcelo BielsaO seleccionador da selecção argentina, disse em entrevista a um meio de comunicação inglês que estava cansado, cansado, que não recebia há sete meses e que dava AFA até ao final do mês. A nota foi publicada pelo site Planetfootball.com, com a assinatura do jornalista Alex Líviana segunda-feira, 29 de abril, faltando 32 dias para o início da Copa do Mundo Coreia-Japão de 2002.
Como o boom pontocom ainda era novo e Bielsa já havia decidido não dar entrevistas individuais, os textuais rapidamente ficaram sob suspeita. Mas o conflito estava lá.
Mundo retrô: contagem regressiva
Os quatro textos mais fortes publicados pela mídia inglesa foram:
- “Estou irritado com esta situação e sinto-me mentalmente exausto”
- “Sou casado, tenho uma filha pequena e tivemos que viver sete meses sem salário”
- “O presidente Grondona me faz promessas contínuas, mas nunca as cumpre”
- “Nem a AFA nem os líderes entendem os nossos esforços para alcançar a glória na Copa do Mundo. Se o problema não for resolvido esta semana, não irei à Copa do Mundo.”
Imediatamente, Andrés Ventura, assessor de imprensa da equipe, foi o responsável por desmentir essas declarações. Ele garantiu que Bielsa nunca deu aquela entrevista e que as declarações poderiam ter sido tiradas do contexto ou atribuídas por alguém próximo ao treinador.
Dois dias depois, no feriado de 1º de maio, Ventura voltou a ratificar a posição oficial: “Ele não avisou e o que foi publicado não pode sequer ser interpretado como uma história de alguém próximo de Bielsa”.
O site atual planetfootball.com iniciou operações em 2017; Também é inglês, mas não tem relação com o anterior. Também não é possível encontrar hoje a nota original em pesquisas avançadas. Mas de uma forma ou de outra, a “suposta entrevista” revelou muito do clima que rodeava a selecção nacional durante o mês de Abril de 2002 e os efeitos da crise económica que eclodiu em Dezembro de 2001, com corralito, a saída do Fernando da Rua e o fim da conversibilidade.
O contrato de Bielsa foi dolarizado e o treinador reivindicou uma dívida significativa. Como eu tinha dito Eduardo Duhalde quando assumiu a presidência após quatro curtos mandatos interinos: “Quem depositou dólares receberá dólares”.
O salário para Louco foi então $ 70.000 por mês e a dívida acumulada ascendeu a US$ 490.000: exatamente sete meses, conforme mencionado na nota. Algo que eu também publiquei Clarim depois do amistoso contra a Alemanha em Stuttgart, em 17 de abril – a Argentina venceu por 1 a 0 com gol de Juan Pablo Sorin.
Héctor Dominguezpresidente do Gimnasia e tesoureiro da AFA, foi o responsável pela renegociação dos contratos. Com os jogadores e com José Pekerman foi acordada a forma de pagamento das dívidas correspondentes aos preços da Eliminatória, embora o mesmo não tenha acontecido com Bielsa, que durante uma conferência de imprensa na Alemanha escorregou: “Todos os acordos são revistos. Os argentinos que estão ligados por um vínculo financeiro estão sujeitos a uma revisão.”
Foto: Tony BoscoMiguel Angel BertolottoO enviado especial do Clarín escreveu uma nota após esse jogo intitulada “Discussão aberta”, na qual revelou uma conversa que teve na segunda-feira, dia 15, com Julio Grondona. Lá, o presidente da AFA lhe garantiu: “O contrato de Bielsa nunca foi em dólares. É em pesos argentinos, na proporção de um para um com o dólar”.
Sobre a dívida, Grondona admitiu: “Há uma grande dívida. Graças a Deus, a Copa do Mundo está chegando. Com o dinheiro que ganharmos, pagaremos a dívida com a comissão técnica e com a equipe.”
Por sua vez, Domínguez explicou Rádio Del Plata sobre uma possível saída do treinador: “Hoje não posso garantir porque não estou na cabeça do Marcelo, mas vamos resolver esse problema da dívida porque somos boas pessoas e não há caprichos pessoais envolvidos”.
Foto: APO dirigente também garantiu que os pagamentos apenas em pesos entraram nos cofres da AFA, Lecops sim Pataconese que os únicos dólares vieram do contrato com a Adidas para roupas esportivas. Além disso, uma grande parte destas receitas destinava-se a pagar o crédito com o qual a greve dos jogadores de futebol por disputas salariais tinha sido levantada no ano anterior.
Embora a relação tensa entre Bielsa e Grondona fosse conhecida, o presidente da AFA não hesitou em elogiá-lo no dia 8 de maio, em entrevista ao Rádio Mitre: “Marcelo Bielsa foi o melhor treinador que a seleção teve nos mais de 20 anos que liderei a AFA. Digo que ele é o mais completo e explico porquê: a vida é dele, a seleção e ele andam juntos, são um só.”
Mas admitiu ao mesmo tempo: “Não sei se a diferença financeira pode ser resolvida. Gostaria que o novo contrato pudesse ser assinado agora”.
O resto da história é conhecido. A Argentina falhou na Copa do Mundo e foi eliminada na primeira fase. Após dois meses de negociações, Bielsa renovou em novembro de 2002 seu contrato com a AFA até 2006. Porém, em 2004, após conquistar a medalha de ouro nos Jogos Olímpicos de Atenas, o treinador alegou que estava sem “energia” e pediu demissão.

Receba todas as notícias, histórias e análises dos jornalistas do Clarín em seu e-mail



