Quando os Estados Unidos prenderam o ditador Nicolás Maduro, a linguagem utilizada para descrever a operação soou imediatamente familiar. Justiça, liberdade, fim da ditadura. É um vocabulário que parece nunca envelhecer, mesmo quando a história já foi comprovada.
Em 2003, no Iraque, o mesmo léxico acompanhou a queda de Saddam Hussein. Depois até a intervenção foi apresentada como um ato necessário e quase moral. A democracia, dizia-se, chegaria imediatamente. Em seu lugar veio um vácuo de poder, desunião pública e um longo período de instabilidade que ainda hoje define o país.
O paralelo nada tem a ver com a natureza dos regimes derrubados, tanto autoritários como indefensáveis. Ele analisa o método e a ideia por trás dele: a ideia de que remover uma pessoa é suficiente para mudar a sociedade. No Iraque, essa fé produziu um Estado frágil. Na Venezuela existe o perigo de produzir a mesma ilusão.
O que torna o caso venezuelano ainda mais problemático é o total desrespeito não só pelo direito internacional (pelo menos no apelo do Iraque às antigas conclusões da ONU), mas também pelo Congresso dos EUA. A destituição do ditador tornou-se um ato unilateral, decretado e fora de qualquer enquadramento do direito consuetudinário.
Parte da classe política e da opinião pública recorda o Iraque não como uma vitória, mas como um documento. É uma memória incómoda que desafia a ideia de uma democracia facilmente exportável, especialmente quando não está claro quem dita as regras.
E ainda assim ele retorna retoricamente. Quando Donald Trump fala sobre “Tornar a América Grande Novamente”, a relação não é apenas económica ou simbólica. Esse slogan também transmite uma visão mais ampla: a ideia da América, que afirma a sua grandeza intervindo além das suas fronteiras, deve responder sem uma ordem internacional comum. Neste quadro, a questão fundamental permanece em aberto: será que a intervenção na Venezuela é realmente concebida como um movimento contra o tráfico de droga, quando o próprio Donald Trump disse que os EUA iriam agora gerir uma “transição” na Venezuela, sem sequer usar a palavra “democrático”?
A história é surpreendentemente apropriada. Remover um ditador não faz parte da construção de uma democracia. A verdadeira mudança não vem de fora, nem pode ser imposta sem consentimento. Surge de um processo interno, lento e incompleto, pelo qual o povo amadurece, se une e se reconhece como sujeito político. O Iraque e a Venezuela, em momentos diferentes, parecem recordar-nos a mesma clareza silenciosa.
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Eirini Lavrentiadou é atriz e cantora, nascida em Salónica em 1992. Nasceu em Florença, onde estudou na academia de teatro da cidade e na escola de música Faesula. Atuou em música clássica grega e europeia, trabalhou com maestros e companhias internacionais e apareceu em concertos que vão da ópera ao jazz. Ela contribui para o Florence Daily News.
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