Afinal, o mando de campo conquistado no All-Star Game é tão importante assim na World Series?

Um dos elementos que diferencia o Jogo das Estrelas da Major League Baseball em relação ao das outras grandes ligas norte-americanas (a saber, NBA, NFL e NHL) é a possibilidade de definir o mando de campo da World Series da respectiva temporada a favor do representante da liga que vence o (também conhecido como) Midsummer Classic – que, neste ano, será disputado no Great American Ball Park, a casa do Cincinnati Reds. Mas será que tal diferença (que surgiu em 2003 após o controverso ASG de 2002) vem se tornando uma vantagem efetiva no Fall Classic de outubro?

Antes de abordamos esta questão, um pouquinho de história…

Contexto histórico: A necessidade de tornar o ASG mais atraente

Dois elementos vem sendo comuns aos Jogos das Estrelas das quatro grandes ligas dos EUA ao longo das décadas: a presença de seus principais atletas – ou, pelo menos, dos mais celebrados pelos torcedores, que decidem quais serão All-Stars – e a falta de competitividade dos mesmos, até pelo caráter festivo da ocasião e, principalmente, para evitar lesões que possam prejudicar as equipes – no caso da NBA e da NHL, uma “estrela” contundida pode ser a diferença entre ser campeão e ficar de fora dos Playoffs, visto que os respectivos All-Star Breaks ocorrem no meio da temporada regular e um jogador machucado em um elenco reduzido (em relação ao da MLB) faz muito mais falta. O Pro Bowl – Jogo das Estrelas da NFL – é realizado ao final da pós-temporada e a uma semana do Super Bowl, mas nem por isso deixa de ser o mais tedioso dos quatro, uma vez que a natureza física do futebol americano é totalmente jogada de lado em nome do descanso – mais do que merecido – dos atletas.

Tais elementos são mais do que suficientes para não chamarem tanto a atenção dos torcedores, que tornam-se mais engajados em colocarem seus jogadores favoritos no Midsummer Classic – querendo ou não, ser eleito um All-Star conta muito para a carreira profissional do atleta e, muitas vezes, é até utilizado como marca para incentivos monetários em seu contrato – do que em assistirem os jogos propriamente ditos. Contudo, no caso da MLB, um episódio fez com que a liga experimentasse um incentivo extra para que os jogadores levassem o All-Star Game mais a sério: em 2002, o Jogo das Estrelas foi um dos mais intensos de todos os tempos, com direito a um potencial home run de Barry Bonds sendo “roubado” por Torii Hunter logo no início do duelo.

A partida, realizada no Miller Park, se estendeu até a 11ª entrada, com o placar empatado em sete pontos. Mas havia um problema sério: as duas equipes não teriam mais arremessadores disponíveis para uma eventual continuação do jogo na 12ª entrada – e, lembrem-se, a última coisa que a MLB, os times e os managers querem ver é um atleta machucado no Jogo das Estrelas. Sendo assim, ficou combinado entre o (então) comissário Bud Selig, Joe Torre (então manager do New York Yankees) e Bob Brenly (então manager do campeão da World Series do ano anterior, Arizona Diamondbacks) que se o time da Liga Nacional não anotasse a corrida da vitória na parte baixa da 11ª entrada, o jogo seria encerrado sem um vencedor e, pior, sem um Jogador Mais Valioso (MVP). E foi o que aconteceu.

A reação dos torcedores presentes ao não foi das melhores: muitas vaias no Miller Park e garrafas de cerveja chegaram a ser jogadas no campo. O timing para um empate também foi terrível, uma vez que era a primeira oportunidade em que o All-Star Final Vote foi implementado – Johnny Damon (Red Sox) e Andruw Jones (Braves) conquistaram as últimas vagas nos elencos das Liga Americana e Nacional, respectivamente. Pior do que isso: o lendário ex-jogador da franquia de Boston, Ted Williams, havia falecido a poucos dias da realização do Midsummer Classic daquele ano. Num All-Star Break que acabou virando uma celebração à vida e carreira de um dos maiores nomes da história do beisebol, terminar o jogo empatado e sem um MVP (cujo troféu havia sido renomeado em homenagem a Williams) não parecia um desfecho adequado, especialmente para uma liga que ainda tentava reconquistar os torcedores perdidos com a “greve” que paralisou a MLB na metade dos anos 90.

Com isso, era inevitável que a MLB buscasse uma alternativa para, mais uma vez, reconquistar os fãs e, ao mesmo tempo, fazer com que os jogadores se empenhassem durante o Jogo das Estrelas, numa tentativa de encurtar o duelo e evitar o que aconteceu em 2002. Sendo assim, foi anunciado – em caráter experimental e em conjunto com a Associação de Jogadores (MLBPA) – que a liga vencedora do ASG daria a seu representante o mando de campo (ou seja, o direito de disputar os Jogos 1 e 2 e, se necessários, os Jogos 6 e 7 em seu ballpark) nas World Series de 2003 e 2004. A fórmula funcionou – pelo menos, na cabeça de Bud Selig – e foi prorrogada por mais dois anos, tornando-se definitiva a partir de 2007.

Críticas à parte, isso nos leva à pergunta original…

Afinal, ter o mando de campo faz diferença?

Para tentar responder a esta pergunta, vamos analisar a seguinte tabela, que mostra as ligas vencedoras do ASG desde 2003 e os respectivos campeões da World Series:

*A partida foi disputada no antigo Yankee Stadium, em sua última temporada.

Como podemos observar, a equipe da Liga Americana venceu nove dos últimos 12 Jogos das Estrelas, incluindo uma série de sete triunfos consecutivos nos quais seu respectivo representante na World Series venceu o Fall Classic em quatro oportunidades (2004, 2005, 2007 e 2009). No geral, o representante da American League sagrou-se campeão da temporada em cinco destas nove oportunidades – um aproveitamento de 55,6% em relação ao mando de campo conquistado no All-Star Game, o que não mostra uma grande tendência a favor ou contra o mando, especialmente pela amostra reduzida de jogos realizados até o momento.

Por outro lado, e de forma bem curiosa, nos três anos em que a Liga Nacional saiu vencedora do ASG, seus representantes venceram a World Series – incluindo os dois primeiros títulos do San Francisco Giants no novo século, em 2010 e 2012. A princípio, isso poderia ser um indicativo de que o mando de campo é mais importante para as equipes da Liga Nacional, mas se relembrarmos que as equipes daqueles anos mantiveram uma combinação excelente de ótimos arremessadores (seja na rotação titular, seja no bullpen) e qualidade no bastão – em especial, os Cardinals campeões de 2011 -, fica muito mais fácil minimizar o efeito de jogar até quatro partidas em seu ballpark na melhor-de-sete que define o campeão da MLB.

De uma forma geral, a equipe com o mando de campo na World Series foi campeã em oito oportunidades desde que a nova regra do Jogo das Estrelas foi instituída em 2003 – um aproveitamento de 66,7%. Se, pontualmente, isso significa que as equipes vem aproveitando a vantagem que a seleção da respectiva liga conquistou no All-Star Game, este número ainda não é suficiente para observarmos uma tendência extremamente a favor desta tese, olhando do ponto de vista estatístico. Teríamos que esperar pelo menos mais 10 ou 20 anos para termos uma leitura mais interessante sobre isso; afinal, não é porque a Liga Americana venceu 75% dos ASG disputados nos últimos 12 anos que isto serve como uma prova convincente de que seus jogadores são melhores que os da Liga Nacional.

O campeão é decidido em outubro, na verdade. Mas um pouco de ajuda em julho sempre é bem-vinda.