Especialistas alertam que a já precária qualidade de vida de Cuba poderá ser gravemente afetada pela queda do regime venezuelano, devido à forte dependência do país do petróleo venezuelano.
“Se a Venezuela cortar o fornecimento de petróleo a Cuba amanhã de manhã, será dramático”, afirma Gil Baril, especialista em geopolítica latino-americana. “Os americanos pensaram sobre isso.”
Trump disse no domingo que “Cuba está pronta para cair”, afirmando que seria difícil para o país “aguentar” sem as receitas do petróleo venezuelano.
Ivan Klish, especialista em energia do Centro de Estudos e Pesquisas Internacionais da Universidade de Montreal, expressou a sua convicção de que o ataque lançado pelos Estados Unidos na Venezuela e a prisão do presidente deposto Nicolás Maduro colocam Cuba em perigo.
“Se o petróleo parar de fluir para Cuba, mesmo que a sua rede eléctrica já esteja em muito mau estado, criar-se-á uma situação muito perigosa”, afirma.
A ilha atravessa a pior crise económica das últimas três décadas. Num ano, o país mergulhou cinco vezes na escuridão, com grandes cortes de energia que por vezes duraram vários dias, paralisando escolas, atividades económicas e a vida quotidiana dos cubanos.
Dependência na Venezuela
Desde o início da década de 2000, Cuba beneficia de um acordo estratégico com a Venezuela através do qual o petróleo é fornecido a preços baixos em troca de serviços profissionais cubanos, como médicos e guarda-costas.
“Cuba obtém o seu petróleo quase de graça em troca de conhecimento técnico. Será muito caro obtê-lo de outros países. Eles pagarão o preço de mercado”, explica Klish.
Vale ressaltar que a eletricidade permite a movimentação das pessoas, as fábricas funcionam e os caminhões permitem o abastecimento de alimentos e remédios ao país.
Segundo George Mercier, doutorando em ciências políticas, Cuba também revende petróleo venezuelano, especialmente à China, para obter divisas e fazer compras essenciais para a sua população. Isto permite-lhe combater o embargo dos EUA.
Queda incerta
Apesar dos riscos, os especialistas insistem que o colapso do regime venezuelano não é iminente e que o que acontece a seguir permanece imprevisível.
“O regime ainda está em vigor”, disse Gil Baril. “Os principais líderes ainda estão lá e os cubanos ainda estão na Venezuela.”
Ivan Cliché também confirma que não é impossível que aliados como a Rússia venham em auxílio de Cuba no caso de tal crise.
Charles-Emmanuel Coté, presidente do Conselho Canadense de Direito Internacional, afirma que nada impede a Venezuela de interromper a exportação do seu petróleo, mas se assim fosse, “Cuba sofreria as repercussões da violação do direito internacional” por parte dos Estados Unidos.
A Venezuela possui as maiores reservas comprovadas de petróleo do mundo. No entanto, a sua produção diminuiu acentuadamente, passando de 3,5 milhões de barris por dia em 2008 para quantidades que hoje chegam por vezes aos 400 mil barris.



