A Guarda Revolucionária, o exército ideológico da República Islâmica do Irão que os ministros dos Negócios Estrangeiros europeus decidiram na quinta-feira classificar como uma “organização terrorista”, é uma força altamente organizada, que controla sectores inteiros da economia.
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Os ocidentais acusam-no de orquestrar uma operação de supressão, no início de Janeiro, do movimento de protesto generalizado que abalou o país e deixou milhares de mortos.
A União Europeia junta-se assim à posição dos Estados Unidos, Canadá e Austrália, que a designaram como organização terrorista em 2019, 2024 e 2025, respetivamente.
Quem são eles?
Os pasdaran (“guardiões” em persa) foram criados em 1979 pelo Líder Supremo, pouco depois da Revolução Islâmica, “para difundir os ideais da Revolução Islâmica”, lembra Clement Therm, investigador associado do Instituto Internacional de Estudos Iranianos.
O seu número ronda os 200 mil homens, segundo uma fonte diplomática ocidental que pediu anonimato.
Ideologia à parte, esta força “opera como um exército de elite com recursos terrestres, marítimos e aéreos, mas melhor treinado, melhor equipado e mais bem pago do que um exército regular”, explica esta fonte.
O IRGC também serve como ponto de contacto de Teerão para os seus aliados na região, como o Hezbollah libanês ou grupos armados afiliados às Forças de Mobilização Popular no Iraque. A Força Quds, a sua unidade de elite que opera no estrangeiro, também é suspeita de estar por detrás de um ataque a uma sinagoga em Bochum (Alemanha) em 2021.
Constitucionalmente, todos os comandantes do IRGC são nomeados pelo Líder Supremo.
Em Junho passado, Ali Khamenei nomeou Mohammad Pakpour como líder sucessor de Hossein Salami, que foi morto em Junho durante a guerra de 12 dias com Israel. Ele é um veterano da guerra Irã-Iraque.
Quais são os seus métodos?
“É um império dentro de um império”, resume David Khalfa, investigador da Fundação Jean Jaurès.
O Pasdaran possui ou controla empresas em todos os setores estratégicos da economia iraniana. E acrescenta: “Têm uma posição quase monopolista”, seja nas infra-estruturas (portos, transportes, barragens, etc.), na energia (gás e petróleo), nas tecnologias, nas comunicações, ou no sector financeiro e bancário.
O seu orçamento militar é estimado entre seis e nove mil milhões de dólares anuais, ou cerca de 40% do orçamento militar oficial iraniano, segundo dados recolhidos pelo investigador. “Eles controlam de facto a economia iraniana.”
Como eles funcionam?
A Guarda criou uma vasta rede de inteligência, “a mais abrangente e mais eficiente do regime iraniano”, como explica David Khalfa.
A sua penetração na população permite-lhes desmantelar cuidadosamente as redes de protesto em tempo recorde, identificando os líderes em apenas alguns minutos.
Contam com uma milícia paramilitar, a Basij, que é recrutada principalmente entre jovens e actua como uma organização ideológica integrada em todas as instituições e classes da sociedade.
O número destas milícias está entre 600 mil e 900 mil pessoas – num país com uma população de mais de 92 milhões de pessoas – afirma David Khalfa, com base em dados de referência de vários centros de investigação americanos.
Qual o papel que desempenharam na repressão?
A Guarda Revolucionária tem estado no centro da repressão dos movimentos de protesto que abalaram regularmente o Irão nas últimas décadas.
O custo humano resultante da repressão de Janeiro, levada a cabo durante um apagão nacional da Internet, é significativo. De acordo com um relatório actualizado da Agência de Notícias dos Activistas dos Direitos Humanos (HRANA), uma ONG sediada nos EUA, 6.373 pessoas foram mortas, incluindo 5.993 manifestantes.
A ONG, que tem uma extensa rede de fontes no país, está a investigar mais de 17 mil possíveis mortes adicionais e lista pelo menos 42.486 pessoas presas numa repressão em curso.
A Amnistia Internacional afirma ter recolhido provas do envolvimento da Guarda Revolucionária do Irão, incluindo as suas brigadas Basij, de vários sectores da polícia iraniana, conhecida pela sigla persa “Farja”, bem como de agentes à paisana.
“Desempenham um papel central na repressão porque hoje, mais do que nunca, são o pilar do regime iraniano, da sua sustentabilidade e da sua sobrevivência”, afirma David Khalfa.



