Enquanto meio milhão de pessoas se reúnem em Palermo no domingo para assistir a um histórico carro de Fórmula 1 girar na esquina da Libertador com a Sarmiento, Buenos Aires dará um recado à F1. Não será apenas um show: terá uma espécie de ritual.
Franco Colapintoum piloto de 22 anos, carismático, talentoso e convocador, reacendeu uma paixão que na Argentina era quase uma religião desde os tempos de Juan Manuel Fangio.
Haverá também um sinal específico: interesse privado em trazer de volta o Grande Prêmio de Fórmula 1 e o início de uma possível quarta etapa no país, após as décadas de 50, 70 e 90. O plano inclui um autódromo que foi totalmente reformado pela prefeitura. E enviados do governo de Buenos Aires em Miami no fim de semana seguinte para se encontrarem com Stefano Domenicali, CEO da Fórmula 1 desde 2021.
Buenos Aires não pode competir com os petrodólares do Oriente Médio. Mas tem algo que a Fórmula 1 mais uma vez valorizou: o brilho. Fanatismo.
O Grande Circo o redescobriu ao se juntar à Netflix para lançar “Drive to Survive”, a série que revelou – com muitos temperos ficcionais – a intimidade da categoria e a aproximou de uma nova geração. Desde então, as faixas rodoviárias e urbanas foram preenchidas: São em média 300 mil pessoas por fim de semana.
O que aconteceu no domingo passado em Buenos Aires promete ir mais longe. Se esta chamada se confirmar, será um valor superior ao valor de vários Grandes Prémios do calendário atual. E com um fato inconveniente para a própria F1: será para um simples road show. Um piloto acelerando um Lotus E20 com motor V8 numa rua de apenas 3 quilómetros, sem ultrapassagens mas com milhares de pessoas empurrando de fora com bandeiras, o que acontece em todos os circuitos onde Colapinto aparece.
A projeção abre outro cenário. Um autódromo de Oscar e Juan Gálvez convertido em um circuito de 4.870 quilômetros, com capacidade para mais de 150 mil pessoaspoderia reunir -com os três dias de competição esgotados- 450 mil espectadores em um futuro Grande Prêmio de Buenos Aires.
Neste contexto, a imagem de Franco Colapinto no asfalto, com o autódromo em plena transformação atrás, já não é um postal: é a síntese de um final de etapa e de outro início.
Enquanto isso, o teste de domingo será de fogo: os olhos da Fórmula 1 estarão voltados para Palermo. A organização deve ser impecável. E o comportamento público, no seu auge.
Uma festa, mas também um diploma: familiar e apaixonante, como a história de uma categoria que deu ao país cinco títulos mundiais com Juan Manuel Fangio e um vice com Carlos Reutemann.
O “impacto” de Franco Colapinto não se mede apenas em resultados: mede-se em pessoas. E na Fórmula 1 de hoje, isso é importante.
O desafio não é pequeno: a Fórmula 1 tem uma lista de cidades à espera do seu lugar e uma competição acirrada dentro do próprio continente. Seis das atuais 24 datas são realizadas nas Américas: Miami (até 2041), Canadá (2035), Brasil (2030), Austin (2026), Las Vegas (2027) e México (2028).
Nesse sentido, uma alternativa começa a ganhar terreno: um sistema de rotação entre sedes. Um plano que poderia abrir uma porta para Buenos Aires, mas que também nos obriga a guardar ano após ano algo mais do que um cartão postal.
Buenos Aires não tem os petrodólares de outros locais, mas tem paixão, história e público. No meio da multidão um pai educará o filho para ver passar um carro: para um será uma lembrança; para o segundo, o começo de algo. Não é nostalgia: é o futuro. A mensagem já está nas ruas. A Fórmula 1 decidirá se o escuta



