Para Izagirre, d voltar Nunca foi outra geração. Há a paisagem da sua infância, o eco das tardes em que os ídolos de Euskaltel percorriam as ruas que ele próprio percorreu como profissional. Existe também essa combinação entre o ciclismo e a vida que só acontece em determinados lugares: amigos, familiares, conhecidos, todos na beira da estrada, todos no mesmo trajeto. Correr lá não era apenas competição. Foi familiaridade. Este link explica porque várias vezes ele deu pontos diferentes na prova basca. Há um fator que não entra nos dados e perpassa toda a sua relação com a raça: a familiaridade com a terra, a proximidade dos entes queridos, o sentimento de pertencimento. Izagirre não esconde isso. Ele sabe que aquela energia extra, aquele moral que não aparece em nenhuma mesa, o empurrou mais de uma vez para estar onde está.
A sua carreira, extensa e consistente, assenta em importantes vitórias em três grandes digressões e em diferentes cenários, embora nenhuma celebração seja igual em casa. Ganhar vale a pena a competição. Fazer isso em Euskadi toca em um registro diferente. Lá, a linha de chegada não é apenas o ponto final. Este é o local de encontro. Abraços instantâneos, olhares familiares, grupos aparecem entre árvores ou cercas. São cenas que não se repetem em França ou em Itália, onde a vitória normalmente cabe à equipa. Em casa é compartilhado.
E entre todas estas imagens há uma que melhor resume a sua história em Atzolia: a mudança para a classificação geral em 2019, feita pela equipa e concluída na última jornada. Esta vitória reuniu tudo o que o ciclismo representa para Izaguirre: estratégia coletiva, resistência, leitura da corrida e emoções. Tendo vencido desta forma, rodeado pelo seu próprio povo e com o seu irmão ao seu lado, a vitória foi mais profunda que o resultado.
Outras cenas menos estranhas e igualmente importantes permanecem vivas na sua memória: a recuperação após uma queda em Arete, a incerteza do sprint em Handaribia decidida por centímetros ou aquele primeiro pódio inesperado que lhe abriu a porta à crença de que poderia enfrentar o melhor. Não há uma única Etzulia na sua memória. São muitos, todos unidos pelo fio emocional que faz sua uma geração.
Num ano de despedida, muda o foco, não a essência. Não há obsessão por resultados ou metas numéricas que marcam o caminho. A prioridade vai para outro lado: evitar obstáculos, sentir-se competitivo e aproveitar a jornada. A experiência ensinou-lhe que uma queda ou um dia mau podem anular meses de trabalho, e a única coisa necessária nesta Etzulia final é realmente prosseguir. Existem condições.
Ele vem com boas emoções, forma e a confiança de que há poucos dias desistiu de levantar os braços. A vitória em Estella, num terreno que conhece como poucos, confirmou as suas pernas, a sua cabeça e a sua movimentação. Um lembrete de que ainda pode estar por vir. A decisão, de qualquer forma, está pendente. O final está escrito. Izaguirre optou por encerrar a carreira profissional antes que o desgaste o obrigue a entrar em um território que não conhece mais. Opta por ir à competição, com bons sentimentos e deixar uma imagem final de acordo com o que sempre foi. Cada vez mais a procura pelo ciclismo, com a concentração, as viagens e o stress a multiplicarem-se, o preço é elevado. E ele já decidiu que não quer continuar pagando.
Quando você quer curar
Há outra razão, mais próxima, que pesa mais: o tempo. Aqueles que não voltam, aqueles que ficam em hotéis e ruas, aqueles que não se compartilham com seus entes queridos. Suas filhas estão crescendo e ele quer estar lá. Não em segundo plano, nem às vezes, na verdade. A bicicleta fará parte da sua vida, apenas de outro lugar, sem necessidade de profissionalismo e sem distanciamento. É por isso que Itzulia não funciona como um endpoint compartilhado. É como uma transição, um encerramento que abre a próxima fase. Um último passo pelos caminhos que o acompanham desde a infância, agora com a certeza de que nunca haverá outro igual.
A depressão pode não aparecer antes de começar. É difícil pensar que isso não acontecerá em algum momento do caminho. Basta imaginar o último gol, o último passo nesses passes, o último contato com um torcedor que sempre o apoiou. Izagir nunca escondeu seu lado emocional e não precisará dar muitos detalhes desta vez. Seu Adeus será lido em Etzulia à medida que avançamos. Nas pedaladas, no seu estilo firme e silencioso que tantas vezes o fez fazer as coisas acontecerem, E pela última vez na imagem de sentir o corre em casa.



