Início ESTATÍSTICAS Medicamentos populares para refluxo ácido associados à anemia e perda óssea

Medicamentos populares para refluxo ácido associados à anemia e perda óssea

103
0

Pesquisadores no Brasil encontraram novas evidências de que o uso prolongado de inibidores da bomba de prótons (IBP) pode interferir na capacidade do corpo de absorver nutrientes importantes. O estudo foi conduzido por cientistas da Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP) e da Faculdade de Medicina do ABC (FMABC). Os IBPs incluem medicamentos comumente usados, como omeprazol (Prilosec), pantoprazol (Protonix) e esomeprazol (Nexium), que são comumente prescritos para úlceras, gastrite e refluxo ácido.

Embora esses medicamentos sejam eficazes na redução da acidez estomacal, usá-los por mais tempo do que o recomendado pelo seu médico pode levar a deficiências nutricionais, incluindo anemia, e pode afetar negativamente a saúde óssea. As descobertas foram publicadas em ASU Ômega.

Desequilíbrio mineral associado ao omeprazol

Com apoio financeiro da FAPESP, a equipe estudou como o uso crônico de omeprazol afeta a absorção de minerais essenciais em ratos. Eles se concentraram em ferro, cálcio, zinco, magnésio, cobre e potássio. Os animais que receberam a droga mostraram mudanças claras na forma como esses minerais foram distribuídos por todo o corpo.

O medicamento parece causar o acúmulo de certos minerais no estômago, ao mesmo tempo que cria um desequilíbrio no fígado e no baço. Os exames de sangue revelaram níveis mais elevados de cálcio e níveis mais baixos de ferro, alterações associadas a um risco aumentado de osteoporose e anemia. Os pesquisadores também observaram mudanças marcantes nas células do sistema imunológico.

Para realizar o experimento, ratos adultos foram divididos em dois grupos: um grupo controle e um grupo que recebeu omeprazol. Os períodos de tratamento duraram 10, 30 e 60 dias para refletir a duração variável do uso a longo prazo em humanos.

“O achado mais alarmante foi um aumento significativo de cálcio no sangue dos animais, o que pode indicar um desequilíbrio com a retirada do mineral dos ossos e o risco de osteoporose no futuro. Porém, são necessários estudos mais longos para confirmar essa hipótese”, afirma Angerson Nogueira do Nascimento, professor da Unifesp que coordenou o estudo em parceria com Fernando Fonseca, da FMABC.

Como os inibidores da bomba de prótons afetam o corpo

Medicamentos como omeprazol, pantoprazol e esomeprazol atuam bloqueando a enzima H+, K+, ATPase, também conhecida como bomba de prótons. Esta enzima controla a última etapa da produção de ácido clorídrico no estômago. Ao suprimir o ácido estomacal, esses medicamentos aliviam os sintomas de úlceras, gastrite e refluxo.

No entanto, o ácido estomacal também desempenha um papel fundamental em ajudar o corpo a absorver certos nutrientes. Quando a produção de ácido é reduzida por longos períodos, a absorção de minerais que dependem de um ambiente ácido pode ser prejudicada.

O uso excessivo e o acesso sem receita são preocupações

O omeprazol está disponível há mais de 30 anos e é frequentemente usado, às vezes durante meses ou até anos, sem supervisão médica. “Não se trata de demonizar um medicamento eficaz em diversas doenças estomacais. O problema é seu uso trivial, mesmo para sintomas leves, como azia, e por longos períodos de meses ou até anos. Seu impacto negativo não deve ser menosprezado”, alerta Andrea Santana de Brito, pesquisadora da Unifesp. A pesquisa serviu de base para sua tese de mestrado.

Ela ressalta que as preocupações podem aumentar devido a uma nova regulamentação da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA), que em novembro de 2025 permitirá a venda de omeprazol 20 mg sem receita médica. “Essa facilidade de acesso pode incentivar a automedicação e o uso continuado, apesar da recomendação de limitar o tratamento a 14 dias”, alerta.

Posicionamento da ANVISA sobre omeprazol de venda livre

A ANVISA afirma que o omeprazol 20 mg de venda livre tem como objetivo promover o uso responsável. A agência descreve a medida como “um passo em frente na racionalização da sua utilização e na promoção da sua utilização segura e responsável”.

“Limitar o tratamento a no máximo 14 dias reforça a mensagem de que o medicamento só deve ser usado para alívio de sintomas leves e temporários, incentivando os pacientes a procurar atendimento médico caso os sintomas persistam ou recidivem”, disse a ANVISA em nota à Agência FAPESP. “Recomendações claras na bula e no rótulo, como duração do uso, sinais de alerta e possíveis interações medicamentosas, ajudam os consumidores a tomar decisões informadas”.

A agência também afirma que embalagens contendo suprimento para mais de 14 dias não podem ser vendidas sem receita médica.

Os efeitos podem se espalhar para outros PPIs

Embora os experimentos tenham se concentrado no omeprazol, os pesquisadores enfatizam que novos medicamentos da mesma categoria, incluindo o pantoprazol e o esomeprazol, funcionam de maneira semelhante. Segundo Britt, esses medicamentos podem ter um efeito ainda mais forte porque atuam com mais força e duram mais.

“Nesses casos, o efeito pode ser ainda mais intenso, pois essas moléculas têm efeito mais potente e duradouro. Algumas demoram mais de cinco dias para a formação de novas bombas de prótons, enquanto o omeprazol leva de um a três dias, o que pode aumentar os efeitos colaterais”, explica.

A equipe observa que já foi reconhecida uma ligação entre os IBPs e a redução da absorção de nutrientes. No entanto, este estudo amplia esta compreensão examinando minerais adicionais, incluindo magnésio e zinco. “Ressaltamos a importância do uso racional desses medicamentos e até mesmo da avaliação da necessidade de suplementação em alguns casos. Porém, é necessário acompanhamento médico para avaliação individual de cada caso”, afirma Nogueira.

Source link