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Um comovente retrato da dor de uma mãe

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Desde que o conflito entre o governo colombiano e vários grupos paramilitares e guerrilheiros começou em meados da década de 1960, milhares de pessoas na Colômbia foram, como diz o eufemismo, “desaparecidas à força”. Esta realidade é bem conhecida e já o é há algum tempo – um reconhecimento que durante um período de tempo tão longo pode diluir os receios de algumas pessoas sobre a verdade. Mas para a mãe do desaparecido, retratada em Cinco Anos e Quatro Meses, a dor nunca para, ela muda. Os anos não curam, apenas aprofundam a divisão vertiginosa entre os enlutados que ainda procuram respostas e os sortudos para quem o presente não é uma lembrança constante do que foi perdido.

Com uma produção cinematográfica discreta, mas altamente eficaz, os diretores Juan Miguel Gelacio e Esteban Hoyos García criam uma sensação abrangente de alienação no retrato de Martha Baquero. O segundo longa-metragem estreou na Competição Bola de Cristal do Festival Internacional de Cinema de Karlovy Vary, confirmando o impressionante domínio da dupla sobre o poder visceral e emocional do cinema.

À primeira vista, a estética do filme parece puramente realista, narrando a longa busca de Masha pelos restos mortais de seu filho Fabian. Como parte de um projeto de escavação nacional, ela fez várias longas viagens de ônibus pelo país, escavando meticulosamente em busca de possíveis locais de sepultamento ou preenchendo intermináveis ​​​​papeladas. Mas Geracio e Garcia também utilizam essas cenas para evocar a paisagem sensorial e emocional da vida de Martha. Essas sequências narrativas prosaicas são costuradas em um ritmo calmo e constante que enfatiza sutilmente o sentimento intermediário que define sua existência.

Mesmo naqueles momentos aparentemente mais calmos, ela nunca esteve verdadeiramente presente. Ela estava sempre esperando – esperando por uma resposta, esperando pelo filho, esperando por algo melhor. À medida que a câmera se aproxima dela e foca em suas experiências, ela também destaca sua solidão e seu isolamento em relação aos outros. Enquanto isso, o design de som detalhado amplifica os sons ao seu redor – animais, trânsito, vento. Martha está isolada do mundo, mas sempre hipersensível a ele, como uma pessoa traumatizada que está entorpecida, mas eternamente alerta.

A tensão criada pelos cineastas é tão intensa que muitas vezes beira o terror. Na verdade, algumas das sequências que mostram Masha tendo sonhos estranhos com corpos nus e sem nome em uma floresta escura não apenas se encaixam perfeitamente no filme, mas na verdade proporcionam uma sensação de libertação. Essas imagens de formas assustadoras são cuidadosamente inseridas em momentos-chave da narrativa, entrando em foco em câmera extremamente lenta, ampliando perfeitamente o clima geral de ansiedade, porém ansiosa, do filme.

Todos os elementos de “Cinco Anos e Quatro Meses” são harmoniosos; seu feitiço hipnótico permanece ininterrupto. Crucial entre eles é a atuação silenciosa de Jeanne Nava como Martha, que está em quase todas as cenas. Embora sua personagem seja inexpressiva e aparentemente inalterada à primeira vista, a opacidade com que Nava a interpreta desperta curiosidade. Mesmo que ela esteja passando por uma experiência que é difícil de entender para a maioria das pessoas, sua expressão é mais vazia do que séria, questionando o que ela realmente pode estar sentindo e por que ela pode não estar demonstrando toda a sua amplitude.

No início do filme, Martha frequenta uma aula de dançaterapia para mães enlutadas como ela: são muitas, com redes próprias, cuidando umas das outras. Lá, Martha pôde expressar sua dor e se reconectar com seu corpo. Mas no resto do tempo, a vida continua para o resto do mundo. Foi comovente ouvir Martha adicionar um toque de alegria à sua voz em uma conversa comum para o benefício de seu interlocutor, enquanto todo o seu comportamento estava cheio de tristeza.

Na aula de dança, uma mulher lembra a Martha que ela não está sozinha. Mas para Martha, esta comunidade não era suficiente. Sua expressão é fixa, como a de alguém que se recusa a aceitar que talvez não tenha uma resposta. Ela está esperando por mais. Não é nenhuma surpresa ver Masha embarcar nesta jornada bizarra quando outra mãe chamada Sandra (Carmina Martinez, “Os Pássaros”) lhe conta onde Fabian pode ser encontrado “conversando com os mortos”.

À medida que ela segue o exemplo do estranho – que diz estar à procura do filho há 24 anos – a tensão que até então prevalecia torna-se vívida e concreta. Martha será vítima de um golpe cruel e caro? Mas mesmo que ela pareça estar entrando em um mundo decadente e perigoso do crime, a jornada de Martha e sua conexão com Sandra parecem trazer-lhe uma sensação de conforto.

O que realmente acontece no final desta jornada cabe a cada espectador decidir. Mas o filme realmente atinge seu clímax antes do final, em uma cena belíssima em que Martha fala sobre seu filho pela primeira vez. À medida que Geracio e Garcia cortam para a natureza exuberante que cerca as duas mulheres, a beleza mundana ao seu redor parece vibrar com a paixão juvenil de Fabian e o amor infinito de Martha por ele. É apenas um pequeno passo entre emoções tão fortes e a crença em bons fantasmas. O filme comovente de Geracio e Garcia nos ajuda a entender quem escolheu fazer este filme.

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