Juntos, esses dois blocos formam um mercado com mais de 720 milhões de consumidores.
Escrito por Yanina Lujo
no jornal Ambito
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Este acordo surge numa altura em que o comércio internacional já não se explica apenas pela vantagem comparativa ou pela eficiência económica. Hoje, é definido pela geopolítica, segurança económica, cadeia de abastecimento e alinhamentos estratégicos. Neste contexto, o facto de o acordo UE-Mercosul ter saído do impasse político em que foi colocado não é um facto técnico: é um sinal relevante num mundo que se reorganiza rapidamente.
Uma escala que não pode ser ignorada
Os números ajudam a entender porque este acordo é importante. Juntos, a União Europeia e o Mercosul constituem um mercado de mais de 720 milhões de consumidores. Não se trata apenas de população, trata-se de poder de compra, diversidade produtiva e complementaridade económica.
Além disso, ambos os blocos explicam quase 20% do comércio global. Dito desta forma: o acordo RCEP da Ásia concentra cerca de 30% do comércio global. O USMCA, que integra Estados Unidos, México e Canadá, varia de 16 a 18 por cento. O que a UE e o Mercosul irão assinar não é o maior em termos absolutos, mas é um dos mais relevantes devido à sua natureza birregional e aos tipos de economias que representa.
A Europa traz exigências, regras e padrões complexos. Mercosul, uma proposta competitiva em alimentos, energia, recursos naturais e potencialmente na produção e na bioeconomia. Esta combinação explica tanto o interesse como a resistência.
Por que está agora a desenvolver-se num mundo mais fechado?
O momento não é acidental. O comércio mundial atravessa uma fase de fragmentação. Os Estados Unidos estão a reforçar as políticas industriais de defesa, a Europa está a proteger sectores sensíveis e a Ásia está a consolidar a sua integração intra-regional. Neste cenário, os acordos amplos e birregionais tornam-se menos numerosos.
Por esta razão, o progresso UE-Merxor tem um valor adicional: mostra que, mesmo com tensões internas, protestos sectoriais e custos políticos, ainda há espaço para regras comuns e previsíveis. Não eliminará os conflitos – especialmente na agricultura europeia – mas criará mecanismos para os gerir sem fechar os mercados.
Argentina: oportunidade real, não automática
Para a Argentina, este acordo não é uma solução mágica nem uma garantia de sucesso. Esta é uma oportunidade tangível, mas exigente. O acesso preferencial ao mercado europeu abre oportunidades reais para o agronegócio, as economias regionais, os alimentos processados, a bioeconomia e certos produtos industriais. Melhora também o quadro de investimento e a parceria estratégica com empresas europeias.
Mas o acordo vem com condições implícitas: cumprir normas sanitárias, ambientais e de rastreabilidade, melhorar a logística, ganhar competitividade e manter regras claras. Sem ele, o lucro potencial permanece no nível anunciado.
O verdadeiro perigo: perda de comunicação
O maior risco para a Argentina não é o acordo em si, mas sim ficar de fora dos espaços de integração maiores. À medida que o mundo se organiza em blocos, aqueles que ficam de fora perdem acesso, peso relativo e capacidade de negociação. Não é ideológico: é estrutural.
A UE-Mercosul por si só não define o futuro económico da Argentina, mas determina onde esse futuro será discutido. Estar dentro não garante o resultado. Estar fora, por outro lado, quase garante a irrelevância.
Um sinal que vai além da negociação
Este acordo não deve ser lido apenas em termos do impacto nas exportações. Isto faz parte de um debate mais profundo: que lugar a Argentina quer ocupar no mundo futuro. Uns são mais integrados, competitivos e exigentes, ou renunciam à margem da gestão de emergências.
O acordo UE-Mercosul não é uma porta de entrada. De qualquer forma, é um sinal claro de que o mundo está seguindo em frente. A questão que permanece em aberto é se a Argentina irá acompanhar este movimento com estratégia e estabilidade, ou se será mais uma vez um observador externo.
Consultor. Especialista em comércio exterior
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