Hoje a mensagem chega como costuma acontecer: fragmentada, já interpretada, já disputada antes mesmo de ser devidamente lida. Declaração de Robert Vannacci, ex-general e político do exército italiano, conhecido por suas questões públicas sobre raça, identidade e direitos civis, e depois pela palavra “feminicídio”. A política não flui apenas para ela. A própria linguagem parece estar em perigo.
E, no entanto, perante as posições, perante as polémicas, perante as constituições, permanece uma questão mais lenta e quase incómoda: que palavras usamos com elas? eles não apenas descreverão o mundo. Eles organizam isso. Eles fazem isso conversando. E eles fazem o maior sentido possível.
Veja a antiga palavra grega δεμόκρατης, de δῆμος (dêmos, povo) e κράτος, que forma literalmente a ideia de “poder do povo”. Uma palavra que já contém uma promessa: que a autoridade política não é de um, mas do colectivo de cidadãos. Mesmo que a sua verdade histórica tenha sido sempre muito mais contraditória do que a sua etimologia sugere, continua a ser uma daquelas palavras mais raras em que a linguagem e a imaginação política são tão claramente moldadas.
“Feminicídio” é uma palavra bem mais recente, mas funciona de forma semelhante: não apenas descreve o acontecimento, mas tenta nomear a estrutura. Indica que o assassinato de uma mulher não é um ato isolado, mas possível e recorrente – resultado de relações nas quais o gênero se torna uma forma de hierarquia. Nesse sentido, o termo remete à notícia e à sociologia, mas também ao conhecimento coletivo.
Na linguagem jurídica italiana, o feminicídio tornou-se um crime específico ao abrigo da legislação aprovada em 2025. No entanto, o termo ainda é amplamente utilizado no debate público e nas ciências sociais num sentido mais amplo, porque não descreve apenas um crime, mas aponta para os padrões mais frequentes de violência baseada no género, relações de controlo e poder estrutural desigual.
A tentação é sutil para cada coração. Por um lado, a palavra perigo torna-se um slogan; por outro lado, esforça-se por conter o assunto, que de outra forma se dissolve em incidentes isolados. Cada vez que foi dito, não só isso. Ele também diz como gosta de ver. Acima de tudo, se quisermos reconhecer que o que chamamos de “causa única” pode na verdade ser algo maior, ainda incompleto, ainda difícil de reconhecer plenamente.
(Foto da capa: Assassinato por Dimitris Mytaras, domínio público)
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Eirini Lavrentiadou é atriz e cantora, nascida em Salónica em 1992. Nasceu em Florença, onde estudou na academia de teatro da cidade e na escola de música Faesula. Atuou em música clássica grega e europeia, trabalhou com maestros e companhias internacionais e apareceu em concertos que vão da ópera ao jazz. Ela contribui para o Florence Daily News.
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