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Tábuas de 4.000 anos revelam feitiços, reis temidos e um recibo de cerveja

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Por mais de um século, o Museu Nacional abrigou uma notável coleção de tábuas de argila de algumas das primeiras civilizações do Oriente Médio. Muitos desses artefatos têm mais de 4.000 anos e estão escritos em línguas há muito perdidas. Permaneceram praticamente intactos durante décadas, mas os investigadores já os decifraram, revelando textos que vão desde rituais mágicos a registos reais e notas administrativas diárias.

Cerca de 5.200 anos atrás, as pessoas no que hoje é o Iraque e a Síria começaram a pressionar símbolos em argila para registrar informações. Este antigo sistema de escrita, conhecido como cuneiforme, facilitou o surgimento de cidades complexas e governos organizados, permitindo que as pessoas acompanhassem bens, pessoas e decisões.

Ao longo do século passado, o Museu Nacional acumulou uma coleção significativa destas tabuinhas. No entanto, eles não foram totalmente estudados até recentemente. Pesquisadores do museu e da Universidade de Copenhague concluíram o primeiro trabalho abrangente para analisar, identificar e digitalizar toda a coleção como parte do projeto Tesouros Escondidos: Coleção Cuneiforme do Museu Nacional.

Textos raros da antiga Hama

Durante um exame detalhado dos tablets, a equipe descobriu uma ampla variedade de conteúdos, incluindo cartas, registros contábeis, instruções médicas e textos mágicos.

Um grupo particularmente importante vem da cidade síria de Hama, explorada pela primeira vez por uma expedição dinamarquesa na década de 1930. Em 720 AC. e. As tropas assírias destruíram a cidade e levaram muitos de seus tesouros para a capital Assur, localizada no atual Iraque. Algumas tabuinhas permaneceram nas ruínas e acabaram fazendo parte do acervo do Museu Nacional.

“Os textos da coleção que vêm de Hama têm quase 3.000 anos e tratam de tratamento médico e encantamentos mágicos. Eles foram deixados nos restos do que acreditamos ter sido uma grande biblioteca do templo. Todos os outros textos desapareceram”, explica o assiriologista Troels Pank Arbøl, que participou do projeto Tesouros Escondidos.

De acordo com Arböll, estes textos de Ham são particularmente raros porque muito poucos exemplos semelhantes foram encontrados nesta região e período de tempo. Um tablet se destacou em particular.

“Uma das tábuas de argila continha um chamado ritual antibruxaria, que era de grande importância para o poder real na Assíria porque tinha uma capacidade notável de afastar infortúnios – como a instabilidade política – que poderiam atingir o rei”, diz Troels Punk Arbøl.

Este ritual durava a noite toda e envolvia a queima de pequenas figuras feitas de cera e argila enquanto o exorcista recitava certos encantamentos. Como tais rituais estavam intimamente associados ao centro de poder assírio, os pesquisadores ficaram surpresos ao encontrar este texto tão longe das regiões centrais do império. Hama ficava nos arredores desses centros culturais.

Reis, lendas e registros históricos

Entre as descobertas está uma cópia da famosa lista principesca, que contém registros de governantes míticos e históricos. Este documento é importante porque remonta os reis ao tempo anterior a Noé e ao dilúvio.

A versão encontrada no Museu Nacional parece ter sido utilizada para ensino e inclui governantes do final do III milénio a.C.. Outras versões desta lista também mencionam o lendário rei Gilgamesh, conhecido na Epopéia de Gilgamesh.

“Isso faz desta lista de relíquias uma das poucas relíquias que provam que Gilgamesh realmente existiu. Não tínhamos ideia de que tínhamos uma cópia desta lista aqui na Dinamarca. É muito impressionante”, diz Troels Pank Arbyol.

Cartas, administração e vida cotidiana

Outro conjunto de tabuinhas vem de uma escavação de 1957 em Tell Shamshar, localizada onde hoje é o norte do Iraque. Esses textos incluem correspondência entre um líder local e o rei assírio de cerca de 1.800 aC, bem como registros administrativos.

Tais documentos mostram quão importante era a alfabetização para a governação das sociedades primitivas. Muitos tablets contêm informações práticas, incluindo inventários, listas de pessoal e contas financeiras.

“O grande número de tabuinhas cuneiformes que temos hoje testemunha uma burocracia altamente desenvolvida. Era necessário acompanhar as sociedades avançadas que estavam sendo criadas, e encontramos um grande número de tabuinhas cuneiformes contendo informações práticas, como contas e listas de bens e pessoal. Portanto, não é surpreendente que uma das placas da coleção do Museu Nacional contenha algo tão comum quanto um recibo de cerveja muito antigo”, conclui Troels Punk Arbøl.

Digitalização do conhecimento antigo

O projeto “Tesouros Escondidos: A Coleção Cuneiforme do Museu Nacional” é administrado por Nicole Brisch (Universidade de Hamburgo) e Ann Haslund Hansen (Museu Nacional). O trabalho é apoiado pela Fundação Carlsberg, pela Fundação Augustinus e pela Fundação Edubba.

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