Início ESTATÍSTICAS Cientistas alertam: este “remédio milagroso” só funciona danificando células humanas

Cientistas alertam: este “remédio milagroso” só funciona danificando células humanas

69
0

A Solução Mineral Milagrosa, comumente chamada de MMS, tem sido apontada há anos como uma suposta cura para doenças graves, como câncer, autismo e COVID-19. Apesar destas alegações, MMS é simplesmente o nome comercial do clorito de sódio (NaClO2), um desinfetante forte usado para purificar a água. Quando o clorito de sódio é misturado com ácido, o dióxido de cloro (ClO2), um produto químico que pode ser perigoso se ingerido.

Investigadores da Universidade Médica de Wrocław decidiram estudar o que acontece quando esta substância é testada em condições científicas controladas. Seus resultados foram publicados na revista Scientific Reports. A equipe estudou clorito de sódio acidificado (ASC), que cria ClO2usando duas formulações diferentes. Uma versão, ASC1, foi acidificada com ácido clorídrico, enquanto ASC2 utilizou ácido glucônico. Ambos foram testados contra vários tipos de bactérias, incluindo cepas prejudiciais como Staphylococcus aureus e Escherichia colibem como bactérias probióticas benéficas, como Lactobacillus rhamnosus.

O efeito antibacteriano tem um preço

Os pesquisadores confirmaram que o dióxido de cloro pode matar bactérias. No entanto, descobriram que só funciona em concentrações que também são prejudiciais às células humanas. A uma concentração de 30 ppm (0,003%), as bactérias foram mortas, mas os testes também mostraram danos óbvios às células da pele e uma elevada taxa de mortalidade num modelo in vivo. A equipe também investigou biofilmes bacterianos, que são camadas protetoras que dificultam o tratamento das infecções. Embora o ASC tenha conseguido romper esses biofilmes, o fez danificando os tecidos circundantes.

“Os resultados do estudo mostram que concentrações eficazes de ASC contra biofilmes também são tóxicas para células eucarióticas, mas não se pode descartar que será desenvolvida uma formulação para uso externo que garanta a segurança de uso com alta eficiência contra biofilmes”, explica a Dra. Ruth Dudek-Wicher do Departamento de Microbiologia Farmacêutica e Parasitologia da Faculdade de Farmácia da Universidade Médica de Wrocław.

Riscos para bactérias benéficas e intestino

Dr. Dudek-Wicher também enfatizou a importante diferença entre soluções de ClO₂ purificadas feitas profissionalmente, às vezes usadas em odontologia, e as misturas caseiras dos defensores do MMS. O estudo analisou como o ASC também afeta bactérias probióticas. O biofilme formado pela bactéria Lactobacillus mostrou-se extremamente sensível a essa substância, o que levanta preocupações sobre possíveis danos à microflora intestinal.

“No momento, não estamos planejando tais estudos, mas não os descartamos no futuro. Se uma forma oral segura de ASC for desenvolvida, será necessária uma análise de seus efeitos no microbioma”, diz a Dra. Ruth Dudek-Vicher.

Desinformação e crenças perigosas

Os pesquisadores deixaram claro que seu trabalho não se limita à ciência laboratorial. Visavam também combater a propagação de desinformação em torno do MMS.

“O erro mais prejudicial é acreditar na eficácia do MMS sem fortes evidências científicas”, enfatiza o Dr. Dudek-Wicher. “Na farmácia e na medicina, considera-se o equilíbrio entre benefícios e riscos. No caso do MMS, o benefício é zero e o risco é alto, principalmente porque a dosagem muitas vezes é administrada em conta-gotas fora do padrão, que pode chegar a 1 ml com 15 ou 30 gotas. Essas oscilações na dosagem oral de uma substância agressiva são muito irresponsáveis”, acrescenta.

Às vezes, o MMS é até promovido para uso em crianças e mulheres grávidas. Dr. Dudek-Vicher expressou especial preocupação com as recomendações que ligam o MMS à perda de peso. “Fiquei particularmente chocada com as diretrizes antiobesidade, que não mencionavam o efeito do MMS no tecido adiposo, mas apenas afirmavam a autoaceitação combinada com a estigmatização da obesidade”, diz ela. Ela argumenta que o perigo não está apenas na substância em si, mas também na forma como ela é comercializada, utilizando apelos emocionais em vez de evidências.

Combatendo os mitos da saúde com ciência e empatia

A desinformação do MMS pode ser combatida de forma eficaz? Segundo o Dr. Dudek-Wicher, a resposta é sim, mas requer colaboração entre disciplinas e uma abordagem mais compassiva. “Sim, mas requer uma abordagem integrada e multidisciplinar e empatia. Hoje em dia, o combate aos mitos é muitas vezes marcado pela falta de respeito e compaixão. As pessoas recorrem ao MMS porque se preocupam com a sua saúde – e a educação precisa de refletir isso, com uma comunicação baseada no respeito.”

Ela também salienta a importância de financiar pesquisas que desafiem falsas alegações de saúde. Ela diz que a ciência tem a responsabilidade de proteger o público da desinformação. É por isso que ela saudou o reconhecimento da sua bolsa universitária no MMS e a publicação dos resultados em Relatórios científicos.

Atenção pública e pesquisas futuras

A investigação realizada na Faculdade de Farmácia atraiu a atenção dos meios de comunicação social, incluindo um artigo e um vídeo publicados na página inicial da Agência de Imprensa Polaca. Segundo os investigadores, este interesse reflete uma procura mais ampla por informações claras e baseadas em evidências.

“Na Faculdade de Farmácia não temos medo de temas difíceis. A segurança dos pacientes que se perdem na busca por tratamento é muito importante para nós. E o interesse pelos resultados nos incentiva a continuar nosso trabalho. Estamos planejando uma série de análises e publicações sobre outras drogas milagrosas – DMSO, adaptógenos, protocolos de ‘desintoxicação’ – tudo no espírito de desmistificação científica”, concluem os autores. Dr. Dudek-Wicher e Professor Adam Junka do Departamento de Microbiologia Farmacêutica e Parasitologia da Universidade Médica de Wrocław.

Source link